Baixada


“Olha a pizzaaaaaaaa………….. de deeeeez!”

E assim começa a noite aqui do alto do sétimo andar. As badaladas do sino da Catedral da Sé ecoam até aqui, junto com uma outra infinidade de barulhos.

Além dos já citados vendedor de pizza – que sempre vem acompanhado de um eco quando grita o preço, a molecada grita “de deeeeez” como se fosse gol -, temos carros com funk na rua (isso mesmo, carroS), música boliviana na esquina do lado esquerdo, culto evangélico na esquina do lado direito, carro de som nos aniversários, muita gente na rua conversando, muito barulho diferente.

A falta de cores incomoda um pouco. Por todo lado, cinza. Cores mesmo, só nas lojas, mas de resto, só cinza. Prédios altos, tudo cinza. Muros altos, tudo cinza. No quarteirão do lado, as cores já ganham a rua. Tanto no grafite feito na escola, quanto as casas, sempre com cores vivas.

O metrô Sé fica a dez minutos daqui, e no caminho se vê de tudo. Se escuta de tudo. Se sente de tudo.

Morar no centro era o que faltava, e a praticidade as vezes choca. Coisas baratas, coisas que parecem não existir em outros locais (tem lan house no seu bairro ainda? Na minha rua, são 3).

O prédio lembra um pouco cenas de filme brasileiro. Aqueles prédios com corredor estreito, corredores com muros vazados, um apartamento do lado do outro, e gente de todos os cantos do Brasil – e do mundo – morando ali. No andar que eu moro, tem cearense, tocantinense, boliviano e haitiano. Eu amo a miscigenação daqui, e a troca de culturas: roupas, músicas, horários e modos de se divertir mostram muito sobre eles.

Só falta o Wagner Moura.

 

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Rio estreito sempre alaga na tempestade


“Faltam poucos dias pra um novo recomeço. Talvez sejam só números, um ritual sem muito significado, mas lá dentro dá pra sentir uma vontade de recomeçar que não há no resto do ano. Parece que tem uma áurea especial, uma energia diferente, uma corrente positiva nessa história de ano novo. 

Há uma possibilidade desse sentimento de recomeço se basear no que foi o ano que está por acabar, nas coisas que aconteceram, nas coisas que fiz, nas que deixei de fazer, nas que só imaginei, e por aí vai. Ano pesado, difícil emocionalmente e profissionalmente, impressão de depressão, falta de confiança.

Foi um ano de muita auto análise, auto conhecimento auto reflexão. Cara, quantos erros bestas eu cometi esse ano. Quanto impulso e quanto descontrole emocional eu demonstrei também. Muitas situações onde o chão era mais perto do que o céu, onde cair era mais frequente que voar, onde levantar já era tão natural quanto respirar, onde a entrega venceu a esperança. 

Cada dia como se fosse o mesmo, só esperando o tempo passar e o milagre acontecer. Perante tanto tombo, nem quis mais voar. O descontrole e o choro eram constantes, e sair era a única coisa que acalmava o coração e a alma. 

Até mesmo o que sempre foi a válvula de escape e o grande sonho foram perdendo a força e a razão de existir. Banho maria em mim mesmo, estagnação, não saber por quais rios navegar. Já era só um desabafo, uma força de desestressar (sic), e não o sonho de vida, meta de profissão, a ambição de antes já não existia. E o que mais me entristecia era justamente essa perda do tesão, e não as quedas em si.  

Quando tudo parecia que ia acabar assim mesmo, algumas coisas positivas aconteceram, alguns raios de sol em meio a tempestade apareciam como fio de esperança em meio a fios de navalha. Positivo também foi o efeito psicológico e o reflexo na auto estima com as coisas boas citadas. Esperança de dias melhores em um sorriso que abre portas e desarma, mostrando que as minhas qualidades tem que suprir os erros em meus pensamentos. Aos poucos, a confiança volta, a leveza também, o sorriso, a boa expressão que reflete a melhora da alma e do peito depois de tudo que fora citado e vivido nos últimos meses.

Estrada longa que sempre leva a lugares desconhecidos por mim, pra fazer o que sempre amei – por mais que o gás já não seja mais o mesmo como citado anteriormente -, com pessoas do bem e quem acreditam em algo que de uns tempos pra cá eu só via e ouvia coisas que me deixavam pra baixo. Renovou, deu uma certa confiança pra um novo rumo, um novo recomeço e um gás extra no que já era meio perdido.

Dar valor as coisas boas pra esquecer as ruins, e no fim das contas, vou terminar o ano melhor do que eu imaginava, a balança não ficará tão desequilibrada. Um dia meu irmão disse que o meu grande defeito é que eu penso muito no problema, não na solução. E isso faz total sentido. Talvez eu me deixe sufocar pelo problema, ao invés de agarrar as cordas jogadas para me ajudar. Algumas eu agarro, e me ajudam a sorrir, distrair a mente, acalmar a alma e sorrir. Mas as que resolvem de fato o problema, eu deixo passar.

Em breve tudo melhora. Chega de metáforas, hora de dormir.

Obrigado, tempo.”

Pane


Copos de vidro vazios aparecem em todo canto. Brotam a rodo pelo chão, como se eles se dividissem, assim como uma ameba. Aos poucos, vão aparecendo mais e mais, por todo canto. No chão, na escada, em volta do carro, perto do portão, na rua esburacada. Pisar e não cair vira um dilema. No sonho e na vida.

Benjamin Button no jeito de ser. Quanto mais velho fica, mais jovem se torna. Ou mais cansado, desacreditado. Talvez a inocência de criança e esse anseio pelo amor eterno, romântico e constante acaba causando frustrações jamais sentidas, tombos jamais tomados, e os rumos acabam se perdendo dentro do peito, que a essa hora mais parece uma pedra.

O futuro chegou. Tanta procrastinação e apego ao improvável renderam insegurança, labirintos, indas e vindas. A arte de se superar também se faz presente. Mas, até quando?

O sofá é sempre mais atraente, famosa zona de conforto. As árvores balançam no terreno ao lado. O vento trás algumas nuvens, mas ainda sim incapaz de atrapalhar o sol escaldante e o azul reluzente que arde e irradia o dia. Primavera que parece verão.

Ás.

O pulsar da alma se esconde atrás da já citada zona de conforto. Curtos momentos, breves mensagens. Olhar pra dentro e pra fora, observar e absorver. Hora pra se aprender. Pedras e sonhos são as únicas armas agora. Lembranças que poderiam servir de aprendizado, mas que só desconcentram. Tudo deixado pra trás como se nada tivesse acontecido, no desespero por chegar o fim de 2017 logo, e que vá com ele todas as merdas que aconteceram esse ano.

Trégua.

Treliça


Acalanta a alma saber que aqui o silêncio e a escuridão permitem levitar e esquecer a realidade e o cotidiano meio perdido e repetitivo de uma vida inteira deixada pra depois, vendo tudo evoluir e a metamorfose não acontecer. O excesso sempre faz mal, a química sempre ameniza a cobrança interna.

Frustrações que deixam um pé atrás, fazendo a caminhada ficar meio manca. Amarrações a um passado que não volta mais, e o medo hoje não é mais de “não dar certo”, e sim de “não fazer o que tem que ser feito”. Mas na falta de escudo, vai com os medos mesmo, que eles sirvam de mola ao invés de muro.

A busca pelo velho amor em se fazer o que sempre se amou segue a tona. Aos poucos, os olhos voltam a se fechar, e tudo que antes parecia acorrentar, hoje já não prende mais. O cansaço mostra o corpo no limite da boa convivência. O cinto cada vez mais apertado revela o esforço e o desgaste em troca de um troco.

Não, não é só um troco. Mas aos poucos, os sorridos, a interação, os acasos do dia a dia foram perdendo o valor, tamanho o desespero pelo troco ao final da labuta. O prazer em estar ali se perdiam em meio a notas tortas e passos apertando e acelerando o ritmo. O amor que sempre foi o combustível de tudo, não entrava mais em ebulição.

Devagar e sempre, achando o caminho de volta, na esperança de entrar em ebulição de novo, com novos projetos a seguir, enquanto tudo em volta parece que vai explodir a qualquer momento nesse vai e vem frenético que consome e confunde necessidade e anseio, deveres e desejos, obrigações e prazeres.

Em meio a tantas mudanças, a impressão que fica é que já se foram 3 anos em 7 meses.

Luz


“Coisinha” que encosta, aconchega e dorme. Um pouco de charme rende um afago, até dois. Saber os passos causa uma leve risada. O canto do sofá já está marcado. Que saudade…

Tanta formalidade que parece de mentira, teatrinho fajuto, digno do “Framboesa de Ouro” – com uma bomba dentro, rs. Tudo detalhado, disfarçando e justificando com competência todo o circo armado. E passa lá, numa caixa – cada vez mais fina – sem informação. 

    Pra lá e pra cá, passos apertados que impedem de viver. Pressa pelo futuro que não chega. Mudar é sempre bom, mas sem se perder. Trocar a rota, não o destino. A não ser que seja ano novo e você vá pra praia…

    Dentre as lições da vida até aqui, fico com a do tetris: quando você se encaixa, você some.


    Há uma teoria explicando que a Lua crescente representa renovação da vida e o crescimento. Olhando pra ela nesse estágio e analisando os outros, faz muito sentido.

    A persistencia por alguns sonhos carrega o gosto amargo das perdas ao longo da jornada. Foco ou sonho de adolescente? Lembranças que viram fumaça quando o desencantamento acontece, e o tal sonho se renova com o tempo.

    Do alto, é tudo tão frágil que parece de brinquedo. O horizonte não trava em concretos e cores artificiais. Tudo parece desenho, desses feitos a mão, milimetricamente pensado. Não se cabe mais apenas na cabeça. Pensamentos na balança pra mostrar o quão tudo vale a pena.

    Lua cheia. A luz refletida por ela dispensa uso da luz artificial. Madrugada companheira, boa para auto analise e trabalho interior intenso. Certezas passageiras que evaporam com o nascer do sol. Uma coisa só. Olhar pra dentro e entender os erros. Sustos e tombos, sempre no fio da meada, coração na boca e cigarro na mão. Que falta faz um abraço.

    Cada vez mais profissional na arte de sufocar sentimentos.

    É…


    Em tempos onde a esperança quase não existe de tão escassa e de tão mal alimentada no dia a dia, sentir alívio por conseguir algo que muitos duvidavam e desdenhavam – muitos ainda duvidam e desdenham – é quase como um gol em final de Copa do Mundo. Sentir satisfação no meio do stress, ver o arco-iris emergir no meio da tempestade.

    Momento importante também para entender a parada toda, a situação como um todo. Entender e filtrar. Novas perspectivas dentro do que está porvir. A sina e a confiança agora andam lado a lado, depois de anos sem harmonizar. Sempre atento pra não virar uma ilusão, uma frustração.

    Turbilhão tenso, como uma onda que leva pra lá e pra cá, bagunçando o mar até então calmo. Mistura de emoções e sensações que não deixa outra saída a não ser o tempo. Quieto, calado, no canto, sem contatos. Belezas naturais a parte, entre a pracinha e a praia, as lembranças da pracinha são melhores.

    Gás essencial para continuar. Em tempos de seca, qualquer gota d’água é alento. De gota em gota, terra seca vira fértil. Desde que seja água salgada: chuva, lágrima ou mar. Observar e traçar planos a curto prazo, um passo de cada vez. Deixar o barco fluir o curso natural do rio.

    Uma hora desemboca no mar.