“Acalenta, coração. Não faça de tudo uma grande explosão. A ocasião pede entendimento e reflexão para compreender o momento. Assimilar os erros e seguir em frente. Ouvir todas as vozes, de dentro e de fora. É, de fora, só algumas. Traçar o passo a passo, suavizar a situação e aquietar.

Marcas e remendos a parte, reconhecer o aprendizado e a ajuda também fazem parte da bagagem e do dia a dia. Mas a alma tem necessidades distintas. Palavras proferidas por puro desespero de quem perdeu o chão, de ver a semente não brotar. Faltou regar. Reconhecer erros fazem parte da evolução.

Porém, não há como ignorar simplesmente tudo que aconteceu, e como se sucedeu. Labirinto difícil de sair. A ausência da temática é reflexo da ressaca emocional, de um momento de trabalho interno, de silêncio, de mudez, de moderação, de recolher. Informação e estudos nessas horas fazem bem. Se renovar, distanciar. Entender as necessidades do tempo.

A vida prepara o terreno, abre mil portas fechadas por não satisfazer, muitas vezes, o ego, e sufocamos o que de mais puro há em si. O casulo estourou, o funil vai fechando, e não há outra solução: hora de aprender com a própria asa.

Cabimentos discutíveis e nem sempre bem aceitos por quem descobre, mas há de entender a situação como um todo. Muitas coisas sem prever, sem saber, outras sem evitar. Tragédias anunciadas na Sessão da Tarde eram ignoradas, porque nada supera a chama acesa. Mas, como dito antes, o vento é mais forte que o sopro. Chama apagada é iceberg.

A porta ficará sempre aberta.”

 

 

Huringa


Trem que passa, gente que sobe e gente que desce dos vagões a todo vapor, sem pensar muito, e com um único foco: “eu”. Trombadas revelam que a insanidade tenta muitas vezes superar até as leis da física. E o ser humano, além da enorme necessidade de aprender cidadania, burla as noções de bom senso. A porta fechou, o perigo passou.

Sensatez. O que há de mais confortante e mais necessário ao mesmo tempo. Por vezes desconfortante e um mal necessário, mas ainda sim com a mesma função, finalidade e consequência. Silêncio que resgata nostalgia, até uma certa saudade do que não se viveu. Aquele velho sonho guardado que a vida trouxe e levou. Afinal, o que é a vida, Antônio Abujamra?

Reservar. Por vezes, preservar o (pouco) que resta. Pontos de vista que se cruzam em uma espécie de ringue que entorta a vista por um minuto e faz uma fração de segundos congelar num enorme arrepio frio, gerando um enorme desalento, um grande aperto que faz duvidar de si mesmo, de quem se é, do que se quer. Time que muda planejamento no meio da temporada, termina rebaixado.

Pra lá e pra cá. Primeiro um ombro, depois o outro ombro. Revirar o esqueleto é consequência. De manhã ou de madrugada, tanto faz. Diminuem as hipóteses, e a necessidade de uma dúvida se retrata no silêncio momentâneo, respostas curtas, coisas breves. Os dias parecem iguais, anos que passam num piscar de olhos. Cuidado, camarão que dorme, a onda leva.

Etapa por etapa, degrau por degrau. Minha avó já dizia – e o Criolo também – que nem todo atalho é bom. Assim como a dúvida e a adrenalina que uma floresta fechada causa, a endorfina age de forma intensa, prazerosa, e por vezes devastadora. Paciência é algo imprescindível para qualquer dicionário da vida. Junto dela, os erros acumulados nessa caminhada de evolução e encontro da alma. Quem espera sempre alcança.

Grande viagem que permite enxergar com clareza os passos em falso dados com tanta certeza que hoje se tem mais certeza ainda que essas tais certezas pré-existentes não eram certezas de p**** nenhuma. “Hãn?! Treco confuso da porra…” Mirando na renovação, reciclagem interna e entendimento. Um desapego sufocante. Trancando um velho baú. Só o que resiste ao tempo mostra o que de fato tem valor. Todo mundo tem medo do tempo, mas o tempo tem medo das pirâmides.

Penitência. A certeza de que o ponto não é final. O breu da madrugada desperta a necessidade de jogar no universo o que se passa nesse mundo louco, único, peculiar, unilateral, egoísta e sonhador. Conflitos de mundos geram grandes colisões, grandes choques de valores um tanto quanto confusos. O baque foi tanto que até se perdeu a noção de valores, ideais, caráter, perante a tanta mudança.

Depois das duas manhã, nada mais do que é dito pode ser levado a sério.

 

Rede


Tamanha persistência e teimosia um dia há de valer a pena. Tanto remendo que parece a roupa do Chaves. Tanto ponto sem nó que parece um crochê desfiado. Filmes repetidos, mesmos erros cometidos, e o fim não poderia ser diferente.

Arrependimentos que fortificam a sensação de impotência. As claras, tudo fica mais fácil de entender e digerir. Acreditar nas pessoas não deveria ser um erro, tampouco um defeito. Foi um tombo atrás do outro, um erro atrás do outro, e o buraco ficou mais fundo. Mal imaginaria que no meio do bosque havia uma armadilha.

Engolir o choro, assumir os erros e sair de lá. A vista fica cada vez mais restrita, mas olhar pra cima trás a luz. Sonhos que se boicotam são vidas que se perdem. No meio de tanta mudança, como mudar?

Só.

Crocodilo


Quando a maré sobe, tem que ficar ligeiro. Mar agitado trás ondas maiores com risco de afogamento, sobe mais na areia e leva canga, camiseta, chinelo, cadeira de praia, cerveja, chaves, celular. Tudo com “c”. Não é recomendável entrar no mar nessas condições. Perigo.

Ao que parece, o espelho reflete diferente agora. Desespero por falta de chão, bebedeira por falta de teto. Bolso vazio não reflete a alma cheia e o sorriso fácil que aparecem ao fechar os olhos.

Dança, movimentos, coros, cicatriz. Cascata secou, por puro entendimento. Gritar no quarto escuro até aliviar a alma. Tudo que era feito havia uma única razão, e a falta dela gera o vazio e irriga a cascata.

O jeito foi engolir palavras pra não mentir. Esconder-se de si mesmo como uma auto-defesa vira a noite e invade o dia. Necessidades continuam ali. Emergir quando a alma se afogar na própria contradição, ou quando se perder na própria escuridão.

Nem tudo é o que parece. Vozes diferentes com a mesma fala. “Até tu?” Parece até Fernando Pessoa e seus vários heterônimos. Ou como um camaleão, que se adapta perfeitamente as mais diferentes situações.

Dar um passo pro lado não é andar pra frente. Caranguejos que o digam…

Se tornar tudo aquilo que sempre criticou. Porque errado mesmo, é só quando o outro faz.

Antes das duas


Parece um pano depois de torcido – estava encharcado. Ou uma laranja sendo espremida até o caroço – sobra só a casca. Difícil é achar “eu” no meio de tantos “nós”. São os nós da vida. Voltar pra superfície já não é tão fácil.

Revisitando um velho baú – não tão velho assim -, vê-se que as impressões e o silêncio vem de longe. Por mais faíscas que saísse, a pólvora nunca foi acesa. Em dois dias, a bomba estourou. Depois de longo tempo de tormento. Nem alegria e nem tristeza, foi o dia do alívio.

Como uma voz forte, que ensina o que parece claro. Parece anestesia, adormecido. Foi como um par de asas, que fez voar, sonhar, planejar, sorrir com a alma. Dali de cima, tudo é tão pequeno, tão irrelevante. Só quem voa junto não diminui de tamanho. Quanto mais alto se foi, menor ficaram as outras coisas, maior e mais importante fica a relação com quem voa junto, lado a lado.

Meio sem entender, as asas começaram a se enroscar. Necessidades escondiam e justificavam a ausência. O desespero justificava o silêncio. Não havia mais sincronismo no bater das asas. Perdeu a força, a pegada, a vontade. Nunca se tinha ido tão alto…

E as coisas lá embaixo? Perderam um pouco o valor, o sentido, a conexão, pois tudo que importava estava lado a lado. Falta de vontade, desânimo, descrença. Falhas escondidas por uma falsa compreensão, que  também escondiam águas salgadas. A ausência da ausência da ausência. O tombo foi grande. E o silêncio de todas as partes como causa de tudo. Sofrimentos reprimidos aqui e acolá, afastaram o que parecia imã.

Foi-se o principal adubo da semente da vida…

Antes da meia noite


A vida é engraçada. Cada um sabe a alegria e a dor que leva no coração, cada um sabe a dor e a delícia de ser o que se é. Coincidências, meras repetições ou frutos da mesma semente plantada em terrenos diferentes?

Gangorras a todo o momento. Desespero e calma, suor e gratidão, aprendizado e compreensão, a dúvida da ausência. O muro e o ponto de interrogação disputam no quesito altura. A forma do “f” define bem o que foi esses últimos 4410 minutos, e hoje já não enrola pra levantar da cama.

Temporais, ócio, céu cinza, bateria descarregada, silêncio, falta de motivação, enorme labirinto sem saída, traumas aumentando em níveis elevados. Existem moedas com dois lados iguais. A balança não está mais no meio termo. Na fome, engole-se palavras. O soldado não pode baixar a guarda. Há um norte.

Contos mal contados para quais fins? Diferentes sensações e emoções. Engraçado como as coisas mudam, é tudo questão de estado de espírito. Mas nada de baixar a guarda…

Dizem que a melhor semente a se plantar são as de Tâmaras…

Raia


Até onde podemos enxergar uma vida singular quando tudo que fora planejado era plural? Qual a sensação de olhar pro lado na caminhada e não ver mais quem caminhava lado a lado? Provavelmente, o mais penoso seja entender a nova realidade do que a dor pelo fim ou o amor incompreendido.

Ceder faz parte do jogo, bem como reconhecer tudo que acrescentou e fez sorrir durante a caminhada. Desde os sorrisos involuntários quando você aparecia na pracinha, o brilho no olhar quando os olhares se cruzavam, até as conquistas e avanços juntos. Sempre tendo o mesmo norte.

Mas o trem descarrilhou. Complexo entender como tudo aconteceu, como tudo se fez ruir. O descaso e o desânimo foram tomando conta. O silêncio também. Ingenuidade, inocência, talvez falta de malícia. Sempre a espera por um carinho, por um sorriso, por um beijo. Sem compreender o que havia por trás de toda essa mudança.

Já são 30 primaveras. Dentro do que fora planejado, não há mais tempo para brincar, para arriscar, para tentar. Nem paciência pra deixar tudo fluir de novo. E o que se tem é um cansaço físico e mental a ponto de não saber o próximo passo a dar. Perdido em meio a um turbilhão de sentimentos, sensações, pensamentos.

Já são 30 primaveras. Tudo que se queria era uma sorte de um amor tranquilo, que alivia ao invés de consumir. Planejar futuro, família, viagens. O presente pode não ser dos melhores, mas o futuro prometia melhoras. Enfim, escolhas e renuncias fazem o caminho da vida, bem como fins e recomeços.

A cicatriz vai fechar. Dessa vez, foi mais profunda. O voo era o mais alto até então, o tombo dessa vez foi bem feio. Mas vida pede passagem, e a essa altura, tudo que poderia ser chorado, já foi chorado. Ou não…

O amor é como uma faca no peito. Ora estanca o sangue, ora faz sangrar.